HIV/SIDA: Longe do fim a batalha contra estigma

HIV/SIDA: Longe do fim a batalha contra estigma


Date: September 18, 2014
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Maputo, 04 de Agosto: O relatório do Programa Conjunto das NaçÁµes Unidas contra o HIV/SIDA (ONUSIDA) coloca Moçambique no quinto lugar, na lista dos 15 paÁ­ses mais infectados no mundo.

Os dados lançados pelas NaçÁµes Unidas, são uma forte barreira nos esforços de Moçambique, na luta contra a estigmatização e discriminação de pessoas vivendo com o HIV/SIDA, em particular as mulheres que, regra geral, são a cara da epidemia, em África.

E, para aferir o peso do estigma Á¡ volta da epidemia na sociedade moçambicana, a nossa reportagem foi ao encontro de algumas associaçÁµes que congregam pessoas que vivem com o HIV/SIDA.

Na Associação Timane, sediada no Bairro Kongolote, no MunicÁ­pio da Matola, hÁ¡ 12 quilometros da cidade capital do paÁ­s, que congrega 130 membros procuramos conhecer o dia-a-dia da agremiação na luta contra o estigma.

Segundo apuramos, de um tempo para cÁ¡, aquela associação estÁ¡ a registar cada vez um número crescente de doentes que abandonam ao tratamento anti-retroviral, devido ao impacto negativo da estigmatização que ainda abunda na sociedade moçambicana.

As nossas fontes indicam por outro lado que a descriminação não só ocorre nos seus respectivos postos de trabalho, como também na famÁ­lia, nos locais de residência e nas unidades sanitÁ¡rias onde frequentam Á  busca do alÁ­vio do seu sofrimento.

Apesar dos esforços desenvolvidos pela associação, para sensibilizar os doentes sobre a importância do tratamento e da necessidade de vencerem a estigmatização e a marginalização, os resultados ainda estão muita aquém das suas expectativas.

O estigma, a marginalização e a descriminação, contribuem significativamente para o abandono dos doentes, situação que afecta também Á  famÁ­lia, os amigos e outras pessoas próximas ao doente.

Adelaide João de 32 anos, mãe de três filhos disse que soube do seu estado serológico, na última gravidez, e viu-se obrigada a contar ao seu marido, que não acolheu a notÁ­cia com bons olhos.

“VivÁ­amos em Inhambane com o meu marido que expulsou-me de casa, quando soube do meu estado. Regressei a Maputo, na casa dos meus pais, onde por falta de coragem não contei aos meus irmãos sobre a minha doença.

Sem este importante suporte familiar tive de abandonar o tratamento, o que me causou uma recaÁ­da que agravou o meu estado de saúde”, explicou.

Algum tempo depois a uma das suas irmãs, por sinal a mais nova, soube do seu estado de saúde e tratou de convencê-la a retomar a medicação.

Mais tarde, para garantir o sustento dos filhos então, rejeitados pelo pai, aceitou o emprego de empregada doméstica onde, pouco tempo depois viu-se expulsa pelos seis patrÁµes logo que tiveram rumores sobre a sua seroprevalência, através da toma regular dos anti-retrovirais.

Adelaide disse que a justificação sobre a sua expulsão estÁ¡ relacionada com a perca de confiança nela, por não se ter declarado, voluntariamente, que vivia com o HIV/SIDA, algo agravado pelo facto de que ela é quem cuidava das crianças dos seus patrÁµes.

Maimuna Faustino, de 36 anos, que vive com o HIV carrega consigo o vÁ­rus do HIV, viu-se na contingência de ter de abandonar o tratamento por recear o estigma no seio familiar e nos hospitais.

Maimuna disse que quando descobriu o seu estado serológico, porque estava gravida, começou o tratamento vertical longe do bairro para salvaguardar a sua honra e bom nome perante a vizinhança.

A consequência imediata desta decisão foi a mudança radical na sua dieta alimentar, para poder contrabalançar na toma dos medicamentos.

António Paindane técnico de saúde e responsÁ¡vel pela Á¡rea de HIV/SIDA, no hospital de Nhlavela disse que algumas pessoas abandonam o tratamento anti-retroviral por falta de uma alimentação equilibrada e saudÁ¡vel, havendo por outro lado, aqueles que temem ser vistos por vizinhos, na fila de levantamento de medicamentos, na unidade sanitÁ¡ria e ainda, aqueles que desistem do tratamento, pelo simples facto de viverem muito longe da unidade sanitÁ¡ria.

Aquele agente de saúde frisou que em 2012 mais de 94 pessoas abandonaram o tratamento anti-retrovitral um acto que deita por terra, todos os esforços das unidades sanitÁ¡rias e das associaçÁµes de pessoas vivendo com o HIV/SIDA, na contenção do impacto da pandemia.

De acordo com a fundamentação da lei 5/2002, a pandemia do HIV/SIDA e os esforços para a contenção do impacto da doença na sociedade, são uma ameaça ao exercÁ­cio dos direitos fundamentais do cidadão, Á  harmonia social e ao desenvolvimento do paÁ­s.

ImpÁµe-se, pois, a tomada de medidas apropriadas em prol da prevenção da exclusão, da estigmatização, da descriminação e da protecção social e emocional das pessoas vivendo com HIV através de acçÁµes tais como; educação, informação sensibilização e assistência sanitÁ¡ria.

O director nacional de Saúde Públia, no Ministério da Saúde, Francisco Mbofana considera que o relatório da ONUSIDA mostra que, de facto, Moçambique estÁ¡ entre os paÁ­ses com elevado Á­ndice de prevalência do HIV/SIDA, que sugere uma forte intervenção do governo e da Sociedade Civil moçambicana.
Em 2009, os dados estatÁ­sticos indicavam que 11.5% de moçambicanos, na faixa de 15 aos 49 anos estavam a viver com o vÁ­rus de HIV/SIDA.

No que tange Á  luta contra a estigmatização, o director nacional da saúde avançou que quando o governo tomou a iniciativa de abolir os hospitais dia tinha em vista, precisamente acabar com esta situação.

 


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