Moçambique: Ser diferente é normal À“ paternidade “pós-modernaÀ


Date: June 29, 2013
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E finalmente o bebé iria chegar, o fruto de uma cumplicidade partilhada com a minha parceira teria existência real, fÁ­sica, palpÁ¡vel. A incógnita do sexo foi preservada   até ao “grande momentoÀ, uma romanticização do tradicional para confrontar o moderno.

Finalmente se faz luz e sou informado: “É homemÀ, bem distinto daquele quase lamentoso e introspectivo “é meninaÀ. Estava carimbado a partir daquele momento eu era “paiÀ. A adolescência rica em estórias e os “loucos anos de faculdadeÀ prenhes de excessos passam todos num instante como um cometa pela minha mente.

Logo começaram as felicitaçÁµes e eu cÁ¡ comigo com os meus botÁµes: o que mesmo tem de especial a confirmação de uma capacidade biológica normal a qualquer ser humano saÁ­do da puberdade? Aparentemente tem muita coisa a ver e eu partilhei com a minha parceira um fenómeno que acabava de observar e que baptizei como “duplo parabénsÀ. Funciona assim: “- Parabéns soube que o bebé jÁ¡ nasceu. É menina ou rapaz?À E eu: “-É rapazÀ e logo a seguir: “- OOOOhhhhhhh PARABÉNS!!!À.

FelicitaçÁµes Á  parte, sempre hÁ¡ espaço para o regabofe habitual neste tipo de ocasiÁµes e no espaço de uma semana, antes mesmo que o recém-nascido conheça o seu lar, apetrecha-se uma maratona de almoços e jantares, regados a vinho verde, cervejolas ou qualquer outra rega. Charutos caem aos milhares não fosse o pai até ter ar de ser chegado a um fumozinho.

De mim para mim começo a pensar no futuro desse “vienteÀ. SerÁ¡ que a sua chegada tinha que implicar a partida daquele jovem irreverente, cheio de vÁ­cios e membro efectivo da “turma do exageroÀ? Então quem é que ficaria no seu lugar para “educar uma criança como deve serÀ? Haveria necessidade de se fundar imediata e atabalhoadamente uma nova personalidade? O petiz tem que sofrer a presença de uma personalidade que estÁ¡ ali “Á  experiênciaÀ? Ou o pai deveria deixar o seu “verdadeiro euÀ guiar o novo membro da famÁ­lia? Como se escreve ultimamente: “Pensei, pensei, pensei, penseiÀ para transmitir a ideia que “pensei muitoÀ.

Até que parei de pensar nas coisas sérias, cogitei imediatamente sobre aquele carinho das pessoas a chamarem: “pai de…À que te dÁ¡ aquele ar de responsÁ¡vel que eu tanto procuro por esta vida fora. Aquele ar que te dÁ¡ superioridade a esse “bando de irresponsÁ¡veisÀ que ainda não têm filh@. Depois pensei também que se eu “trabalhar bemÀ este miúdo serÁ¡ concerteza o Obama de Moçambique, nascido Á  25 de Junho, como foi no seu caso. E viajei logo para o dia da Tomada de Posse. Vi nós os dois com indumentÁ¡ria igual lÁ¡ no pódio, fatos azul escuro, camisa axedrazada branca e vermelha, e uma gravata com uma ponta em prata.

Não estava mais ninguém para além de mim e ele. No entanto, era hora de deitar contas Á  vida, planear como seria a sua educação, que escolas deveria frequentar, que amigos ter e que outros evitar, como deveria se comportar desde o primeiro aniversÁ¡rio.

Pausa. Pensei no meu bom e velho progenitor. Pensei nas suas opçÁµes de vida, presentes e passadas, e tentei comparar com as minhas. Pensei nas suas escolhas para o meu curso superior e em toda a “orientaçãoÀ que dele recebi. Pensei, pensei, pensei, pensei. E vi que toda a orientação que recebi foi para ser um homem, nem mais nem menos. O acompanhamento que tive foi para que me tornasse alguém em condiçÁµes de ter as suas opçÁµes e viver com as consequências das mesmas. Ensinaram-me a respeitar as pessoas sem necessariamente indicar quem o merecia mais do que outrem, ensinaram-me que deveria ter dignidade e honra sem necessariamente definirem para mim o que isso significava para eles, ensinaram-me a ser fiel aos credos que eu próprio escolhesse.

Pensei, pensei, pensei, pensei e caÁ­u um decreto: o novo petiz, qual emblema da república, terÁ¡ um lema À“ “Ser diferente é normalÀ. De entre as vÁ¡rias escolhas que tenho guardadas para o futuro dele hÁ¡ que adicionar as próprias. Pai e filho terão que conviver com as suas convergências e estar preparados para o desacordo. Só assim poderemos ter, no futuro, dois Homens que se respeitam. Só assim poderemos, muito para além das famÁ­lias, elogiar a diversidade e saber que apesar das aparências ela rima com riqueza.

Kudumba Root é um antropólogo. Este artigo faz parte da série especial do Serviço de Opinião e ComentÁ¡rio da Gender Links, celebrando Pais Fenomenais


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