Internacional: A catedral ou o bazar – fazendo sentido da COP 17


Date: June 1, 2012
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HÁ¡ dias que não vejo o sol. Nuvens cinzentas pairam sobre a cidade sul-africana de Durban. Chuvas torrenciais e rÁ¡pidas inundaçÁµes mataram cinco pessoas nos bairros suburbanos nos últimos dias. Isto não retirou a Conferência das NaçÁµes Unidas sobre as Mudanças ClimÁ¡ticas dos noticiÁ¡rios. Os homens de fato vieram conversar e nada irÁ¡ os deter de ouvirem as suas próprias vozes.

A África sabe fazer festas e a África do Sul – o décimo terceiro maior poluidor do planeta – ironicamente aumentou em grande as emissÁµes do carbono nas duas semanas graças Á  COP 17. AviÁµes completamente cheios aterravam hora a hora; não havia hotel vazio e barracas e restaurantes significaram lucros para muitos.

O Centro Internacional de Conferências (ICC) dominou o Distrito Central de Negócios de Durban. O Centro de dimensÁµes de uma “catedral” foi palco de uma cacofonia de vozes durante a semana. Havia oficiais que determinam a agenda sobre mudanças climÁ¡ticas, desde oficiais de governos aos das NaçÁµes Unidas. Gastaram dinheiros requisitando relatórios de pesquisa, documentos de polÁ­ticas, estatÁ­sticas e um conjunto de bajuladores para carregarem as pastas necessÁ¡rias para conter toda a documentação.

O lÁ­der de uma delegação podia ter vinte ou cinquenta ajudantes leais para dançar a cada um dos seus caprichos. Os discursos formais dos lÁ­deres foram escutados com fervor pela audiência que sabe que é recÁ­proco – quando é a vez de alguém falar, esperarÁ¡ a mesma reverência. Podiam existir divergências no Protocolo de Quioto, fundo do clima verde e outras questÁµes mas tudo era feito com devida a diplomacia e restrição.

Fora esteve um pouco maluco e engraçado. Um grande bazar de ideias e advocacia ocorreu pela cidade, em locais tão diversos quanto o Espaço Público da Universidade de Kwazulu Natal, o Centro Ecuménico da Diakonia e o Pavilhão de Patinagem Á  Gelo local. Os Amigos da Terra que com paixão opÁµem-se ao comércio de emissÁµes partilharam um espaço numa demonstração com um grupo do CanadÁ¡, oferecendo para compensar as emissÁµes de carbono dos vôos Á  Durban por $20 numa floresta. Trocam mÁ¡quinas para fotografarem os dÁ­sticos de um e outro.

Através dos meus olhos, for a hÁ¡ um equilÁ­brio de género comparado Á  predominância de homens de fatos azuis dentro da “catedral”. Parece que hÁ¡ mais mulheres nas organizaçÁµes da sociedade civil presentes – três mulheres e um homem. As discussÁµes eram mais personalizadas com contadores individuais de estórias desde o Movimento para a Sobrevivência do Povo Ogoni (MOSOP) da Nigéria conversando com os Chiapas do México. Mulheres da Coligação Indiana para o Ambiente falaram ao microfone e convidaram o Povo Filipino para Acção Ambiental para partilhar a plataforma com elas.

Todas parecem ter estabelecidos laços de solidariedade com pelo menos um grupo de mulheres africanas. A confusão de vestidos africanos, asiÁ¡ticos e latinos, vestidos de algodão europeus dos hippie , cabelos cinzentos, grisalhos, trançado, preto, peles negras, amarelas, brancas e vozes de todos os continentes falavam volumes sobre os esforços que todos fizeram nas suas conversaçÁµes e acçÁµes conjuntas.

CamiÁµes vindos de muitos paÁ­ses africanos estavam parqueados na estrada. Muitos viajam milhares de quilómetros por estrada para chegarem Á  Durban de paÁ­ses como Uganda e Quênia. Partilharam estórias sobre travessias fronteiriças; as pequenas cidades que passaram e como pessoas ordinÁ¡rias ficaram maravilhadas ao ouvir as suas viagens Á  Durban.

Ninguém esperava muitas vitórias na “catedral” oficial da COP 17. A discordância é gerida delicadamente e conferência daquela magnitude são notórias pela sua prevaricação e indecisão. Precisamos de electrificar os nossos lÁ­deres para se preocuparem mais sobre a justiça climÁ¡tica e do género. Os nossos camponeses, comerciantes informais e numerosas famÁ­lias são maioritamente mulheres e principalmente ameaçadas pelos efeitos das mudanças climÁ¡ticas. Se a principal convenção pudesse reflectir sobre as suas necessidades, podia ter alcançado algo.
Por outro lado, foi no bazar da sociedade civil onde houve ganhos. Estabeleceram-se redes, partilhou-se informação e fizeram-se laços de solidariedade entre justiça climÁ¡tica e do género durante as milhares de pequenas conversas que ocorreram.

Oficialmente, esta é a década mais quente mas o calor não se sentiu nos escritórios corredores do poder aclimatizados. Uma sociedade civil mais poderosa precisa de apagar o consumo luxuoso que estÁ¡ a matar o planeta e levar os homens de fato Á s machambas e bairros para escutarem mulheres e homens a falarem sobre os efeitos das mudanças climÁ¡ticas.

Trevor Davies é o Director da Iniciativa de Pais Africanos. Este artigo é parte do Serviço de Opinião e ComentÁ¡rio da Gender Links.

 


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