Zimbabwe: SerÁ¡ que a circumcisão mudarÁ¡ ou reforçara o machismo?


Date: October 10, 2012
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Harare, 10 de Outubro de 2012 – Um clima de curiosidade sóbria carectarizava o Centro de Planeamento Familiar de Silhaus, em Harare, enquanto uma dezena de homens À“ jovens e adultos À“ esperavam pela sua vez Á  sala de cirurgia de modo a terem o seu prepúcio cortado.

Na esteira de uma pesquisa que concluiu que a circumcisão reduz o risco de transmissão do HIV em cerca de 60%, a USAID começou a financiar um programa que visa circumcisar dois milhÁµes de zimbabweanos até 2015. Até Á  data, 55 mil submeteram-se Á  operação.

Voluntariei-me a ser parte depois de ter recebido os resultados do meu teste de HIV e aconselhamento de que a circumcisão ajuda a prevenir o HIV e muitas outras doenças.

Antes de pequena operação cirúrgica, todos os participantes fizeram teste de HIV e SIDA e receberam serviços de aconselhamento. Eles também participaram numa discussão de consciencialização sobre os benefÁ­cios da circumcisão. A discussão pareceu ter aliviado as expressÁµes de medo e preocupação das muitas caras dos presentes na sala.

Antes do encontro com a faca, os homens devem receber algumas injecçÁµes de anestesia nos seus pénises. Nessa altura a sala fica cheia de sons de gritos e choros para o gaúdio das enfermeiras que se riem dos homens “fracosÀ no grupo.

Os estereótipos do género fizeram-se presentes e como homens, espera-se que mantenhamos a nossa compostura enquanto espetam-se siringas nos nossos pénises e depois os nossos prepúcios são cortados. Cerrei os dentes e pensei porque tinha-me metido no exercÁ­cio.

O processo é rÁ¡pido e de repente o médico segurou o que parecia um grande pedaço do meu corpo. Juntei-me a muitos na sala que pensavam em voz alta se voltariam a funcionar de novo.

Mesmo assim, todos os homens saÁ­ram da sala com um ar de triunfo. Mais tarde postei as notÁ­cias do meu aparentemente corajoso acto no Facebook e recebi reacçÁµes mistas. Alguns perguntaram se estava louco À“ como podia ter sido vÁ­tima da propaganda dos doadores, queriam saber.

Porém, quase todas as minhas amigas, elogiaram o meu acto corajoso.

A circumcisão permanence uma questão candente, especialmente entre os homens e mulheres. Muitas das minhas amigas vêem os óbvios benefÁ­cios de saúde, incluindo a redução do risco de infecção pelo vÁ­rus do HIV. Para as mulheres, se os seus namorados ou esposos são circundados, reduz-se as chances de que irão infectÁ¡-las com o vÁ­rus do HIV se pularem a cerca.

Entretanto, a circumcisão ganhou grande apoio no paÁ­s e 175 deputados voluntariam-se a fazer a operação.

Num artido recente da New Zimbabwe, Blessing Chebundo, deputado pelo cÁ­rculo eleitoral de Kwekwe e presidente da Comissão Parlamentar sobre HIV e SIDA, disse que os deputados estão prontos para lidar pelo exemplo. “Comportar-nos-emos como exemplos e lidar pelo exemplo para embarcarmos em testes voluntÁ¡rios de HIV e circumcisão masculina, bem como inspirar os jovens a fazer o mesmo,À disse. “Precisamos de voltar aos cÁ­rculos eleitorais, provÁ­ncias, distritos, bairros e aldeias para transmitir a mensagem da luta contra o HIV e SIDA e encorajar os homens a fazer circumcisão voluntÁ¡ria.À

Enquanto alguns deputados submetem-se Á  circumcisão, alguns, tais como o deputado pelo cÁ­rculo de Magwegwe, Magalela Sibanda, acreditam que a circumcisão é coisa para jovens. Ele disse ao Newsday: “HIV devia constar no currÁ­culo dos jovens em idade tenra para não nos dizer aqui no parlamento, quando jÁ¡ tenho 65 anos de idade, para fazer circumcisão quando jÁ¡ sou pai de 18 filhos sem estar circundado.À

Como uma polÁ­tica do governo, parece que a circumcisão é reluntantemente apoiada por alguns deputados porque outras iniciativas relacionadas com doenças e financiadas pelos doadores estão ligadas Á  este programa.

Embora os benefÁ­cios da circumcisão foram provados, a tentação dos homens circundados de se sentirem “protegidosÀ À“ e, por conseguinte, envolverem-se em prÁ¡ticas sexuais desprotegidas À“ é um risco perigoso capaz de aumentar a pandemia por causa deste programa.

Semanas dentro do processo de cura, ouvi de alguém que conheci na clÁ­nica. Disse que o seu órgão tinha ficado curado e queria “testÁ¡-loÀ. Deixou bem claro que queria testar o órgão com vÁ¡rias parceiras sexuais para se certificar que estÁ¡ “bemÀ.

O que disse ilustra a atitude falsa entre muitos homens circundados que são sexualmente activos de que a circumcisão os dÁ¡ uma licença para se envolver em ligaçÁµes sexuais múltiplas. As mensagens sobre o benefÁ­cio da circumcisão não parecem plenamente integradas nas campanhas de prevenção de uma forma que sublinhe o ponto de que mesmo homens circundados correm o risco de contrair e espalhar o vÁ­rus.

Por isso, uma énfase continuada sobre o uso da camisinha e, mais importante ainda, o desenvolvimento, consciencialização e acesso aos métodos de prevenção do HIV que dão poder Á  mulher sobre a sua sexualidade são chave.

A circumcisão não resulta necessariamente na mudança do comportamento sexual dos homens. Para muitos homens machos, parece ser ainda um outro trofeu no armÁ¡rio. Tais homens não compreenderam a mensagem de que é apenas um método de prevenção do HIV À“ os homens precisam de continuar a ser fieis e usar o preservativo.

Por enquanto, a luta para se lidar com o HIV e SIDA continua quente. Pode-se esperar que todos os homens circumcisados aprendam a deixar o mau comportamento na mesa de cirurgia. A minha cicatriz é permanente e uma lembrança diÁ¡ria do custo de fidelidade e cometimento real Á  famÁ­lia, parceria e casamento.

Rashweat Mukundu é um jornalista zimbabweano e activista dos direitos humanos. Este artigo faz parte do Serviço Lusófono de Opinião e ComentÁ¡rio da Gender Links


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